Entrevista - Tio Fiore



Histórias que divertem

Contar histórias desenhando. Uma atividade aparentemente simples, mas que despertava o fascínio e a curiosidade de milhões de crianças nas décadas de 70 e 80. Nesta entrevista exclusiva à Mofolândia, Florentino Martino Filho, o Tio Fiore, conta como mexia com a fantasia das crianças com suas histórias desenhadas ao vivo na televisão. Paulistano do bairro do Ipiranga, ele começou a trabalhar precocemente aos 8 anos e não parou mais, incorporando as funções de apresentador, ator, humorista e roteirista, além de radialista, músico e cantor nas TVs Paulista, Excelsior, Tupi, Gazeta e SBT. Participou ativamente da criação e produção de humorísticos e infantis como Pim-Pam_Pum, Zás-Tras, Clube Papai Noel, Pulman Jr, Vila Sésamo, Gente Inocente e Bambalão. Hoje, aos 54 anos, dois filhos e no segundo casamento, ele pensa em voltar para o rádio ou TV.

 


Tio Fiore, desenhando para as crianças em programa de TV, no início dos anos 70.
Mofolândia – Como você começou a desenhar? E como os seus desenhos chegaram à TV?
Tio Fiore – Sempre tive vontade de caricaturar mais fielmente as pessoas, captando expressão e traços. Fiz um curso de desenho mecânico, mas nunca exerci. Aprendi muito do que me serviria depois no Liceu de Artes e Ofícios e também no curso de desenho por correspondência do Instituto Universal Brasileiro. Mas sempre fui autodidata e assim, aos 8 anos de idade, ilustrava livros de contos de fadas para a Editora La Selva, na época em que Nico Rosso era o grande mestre da ilustração. Também trabalhei na editora de origem japonesa Taika, em que ilustrava histórias de humor, entre 1958 e 1959. Meus desenhos só chegariam à TV muito tempo depois porque comecei como ator-mirim...



Mofolândia – Então, antes de desenhar, você foi ator. Como você foi descoberto pela TV?
Tio Fiore – Comecei em 1957, levado pelo dramaturgo e radialista Silveira Sampaio, que me descobriu numa festinha do colégio, aos 7 anos. Ele me levou para um teste na TV Paulista OVC (Organizações Vitor Costa), em que concorri com 80 crianças que disputavam a vaga de ator e cantor infantil para a novela infanto-juvenil Minha Pequena Lady. Quem me aprovou no teste foi o ator Dionísio Azevedo e contracenei com Mara Rizzo, Márcia Cardeal, Fulvio Stefannini, David José e Altair Lima. Era tudo ao vivo. No ano seguinte, além de atuar, eu também redigia as vinhetas de Largo do Arroz, um programa com a atriz Heloisa Mafalda. No rádio, fiz algumas rádio-novelas na Rádio Record.


Mofolândia – Ainda criança, você também fez novelas na televisão?
Tio Fiore – Sim. Fiz os teleteatros na TV Tupi. Além das séries, que foram muitas. Eu era o amiguinho do super-herói Falcão Negro (interpretado pelo ator José Parisi) e protagonizamos as aventuras que eram feitas ao vivo e bastante reais. Várias vezes fiquei com o olho roxo por causa das pancadas. Fiz também As Aventuras de Arsênio Lupin, com o Walter Stuart. Já na TV Record, era o amigo do Capitão Sete, vivido por Ayres Campos, em que Silvio Silveira vivia o vilão Dragão Negro e Idalina de Oliveira fazia a mocinha Silvana. Já aos 10 anos de idade, fiz na mesma emissora A Turma do 7. Entre 1960 e 1961, foi formada a Gincana Kibon, apresentada por Vicente Leporace e Clarice Amaral. Eu era o Garoto Toddy, que resolvia as questões formuladas pelo programa.

 


Com Claudete Troiano, que ficaria famosa, anos mais tarde, como apresentadora do programa Mulheres, ao lado de Yone Borges.
Mofolândia – Aos 12 anos você já era uma estrela infantil disputada pelas emissoras. Como conciliava com a vida de criança?
Tio Fiore – Meu pai impôs a condição de que eu não podia parar de estudar. De manhã, eu ia à escola e, à tarde, para a TV ou rádio. Mas minha vida era a carreira artística e realmente era disputado. Em 1962, o então narrador esportivo Edson Leite virou diretor-geral da TV Excelsior. Ele me fez uma proposta e até ajudei a elaborar a logomarca dos dois bonequinhos da emissora. Lá trabalhei em muitos humorísticos e novelas. E existia um telejornal em que eu fazia uma crônica diária falando sobre o que eu quisesse. Um dia, não tinha nada para ilustrar o tema e eu sugeri apresentar desenhando. A partir daí, eu comecei a direcionar essa habilidade para programas infantis, como o Tic-Tac, apresentado por Claudete Troiano, com produção de Valentino Guzzo (que mais tarde se tornaria a Vovó Mafalda, do show do palhaço Bozo, no SBT) e direção de David Grimberg.


Mofolândia – Nesta fase estava sendo criada uma nova emissora. Como você chegou à TV Gazeta?
Tio Fiore – A Fundação Cásper Líbero, na avenida Paulista, estava criando uma televisão nova e me chamaram para ser um dos fundadores. Fazia o Clube Gazetinha, também com a Claudete Troiano. Lá também produzia um programa de entrevistas com a Vida Alves e um musical com o Francisco Petrônio. Em 1971, fiz o Quartelzinho Pé com Pano, com o ator Mario Alimare, que interpretava magistralmente um bêbado.


Mofolândia – Era comum os artistas trabalharem em mais de uma emissora ao mesmo tempo. Isso aconteceu com você?
Tio Fiore – Meus contratos não incluíam exclusividade e foi nesta fase na Gazeta que outras emissoras me contataram. Então, além da Gazeta, eu passei a atuar na Tupi e Record. Mas eu tinha ética e não levava o mesmo personagem para outra TV.

 


Fiore (direita), ao lado de atores da extinta TV Tupi, nos anos 70.

Mofolândia – Com quem você contracenava?
Tio Fiore – Na Tupi, participava de Os Trapalhões, como redator e ator, contracenando com Dedé Santana, Renato Aragão (Didi) e Roberto Guilherme (o Sargento Pincel), entre outros. Era um programa que batia recordes de audiência, inclusive do Fantástico, na Rede Globo. Trabalhei também com Lírio Mario da Costa, o Costinha, em muitos humorísticos da Tupi e Excelsior. Outro grande sucesso foi o Gente Inocente, em que eu contava histórias desenhando no quadro Carta Enigmática. Esse programa diário infantil de início de noite era comandado por Lucio Mauro (hoje no Zorra Total, da Rede Globo). Nos começo da década de 70, com a chegada da TV em cores, fazíamos muitos humorísticos, como o Dom Quixote, em que Sancho Pança era Wilson Vaz de Oliveira e Dulcinéia, a cantora Martinha. E tinha também os Tele Catches, aqueles programas de luta livre com lutadores mascarados. Eu fazia o Fantomas, mas meio na surdina porque não podia associar minha imagem à violência, já que trabalhava para as crianças em outros programas.


Mofolândia – Logo depois veio o fechamento da TV Tupi. Você fazia parte da turma que se reunia na Padaria Real, ao lado da emissora, no Sumaré?
Tio Fiore – A Real era quase minha casa! Lá eu cantava boleros e serestas à noite, junto com os atores Felipe Donovan, Hélio Souto, Dirceu Conte (apelidado de Raposa Prateada) e Décio Donaire (El Morocho). Eu passava muito tempo na padaria e era lá inclusive que se assinavam contratos, como se fosse uma extensão da emissora.

 


Nos bastidores do programa Pulmann Junior, na TV Gazeta, nos anos 70. Ao fundo, Tia Yara, a apresentadora do programa.

Mofolândia – Você também participou do Pullman Jr?
Tio Fiore – Participei da reedição feita na Gazeta, em 1978. Um produtor chamado Antonio Teixeira me encaminhou para a apresentadora, Tia Iara, que estava cuidando do relançamento do Pullman Jr. Desenvolvi personagens como Ovo Boa Gema, que voava no rocambole mágico Pullman, o Zé Fofinho (menino mestre-cuca) e o Pirata Guloso. Em paralelo, na TV Cultura, o diretor Irineu de Carli me convidou para fazer a Sessão Pipoca, ao lado do Palhaço Pimentinha, interpretado por Walter Seyssel. E aí, o professor Osvaldo Sangiorgi (criador também do Quem Sabe Sabe e Qual é o Grilo?) me chamou para ser um dos fundadores do premiado Bambalalão. Eu tinha um quadro chamado Quem Quiser que Conte Outra em que as crianças enviavam as histórias e eu as representava desenhando.


Mofolândia – Com isso, você não fez mais humorísticos?
Tio Fiore – Continuei com trabalhos de ator e roteirista de humor na década de 80. O então iniciante SBT me chamou para redigir e atuar no Alegria 82, em que eu era o Dedinho De Quem?. O personagem era inspirado no Prof. Aloprado, do Jerry Lewis, e era escrito por José Sampaio e José Roberto Abrão Schahim (criador da Escolinha do Prof. Raimundo). Em 1983, o programa era líder de audiência às quintas-feiras à noite, mas Silvio Santos decidiu tirar do ar e fiquei desempregado. Tempos depois, em 1986, um amigo, o Luis Gomieri, me levou de volta à Gazeta para o Brincando na Paulista, que lançou os palhaços Atchim e Espirro. Foi aí que voltei a ser o Tio Fiore , o contador de histórias.

 

Mofolândia – Nos anos 90, você saiu da televisão. O que aconteceu?
Tio Fiore – Fiz apenas algumas participações em programas como o da Angélica, da Eliana e da Jackeline Petkovic. Aliás, tanto a Angélica quanto a Jackeline lembraram-se da infância, quando assistiam as histórias do Tio Fiore . Mas durante quase 10 anos fiquei fora do país. Sempre cantei, toquei guitarra e decidi montar uma big band. Resolvi ir tocar nos cassinos da América Central, principalmente de San Juan, em Porto Rico.


Mofolândia – E por lá chegou a fazer alguma participação na TV?
Tio Fiore – Fiz o protagonista de uma novela em Porto Rico cuja história era muito parecido com a de O Grande Gatsby para uma emissora americana. Também trabalhei para a Televisa num musical chamado Casbah. Fui ainda para Portugal, onde cantava fados e cheguei a ser entrevistado pelo Herman José, uma espécie de Jô Soares português.



Durante entrevista exclusiva à Mofolândia.

Mofolândia – E agora, de volta ao Brasil, o que pretende fazer?
Tio Fiore – Dei aulas de desenho para crianças em colégios particulares. Tive alguns problemas de saúde, mas quero voltar com força total ao rádio ou à TV. Gosto de cantar, mas tenho saudades dos tempos de ator e de contador de histórias desenhadas. Eu me interesso por tudo que seja comunicação.

 

* Todas as imagens fazem parte do acervo pessoal de Fiore.