
Antonio
Carlos Cabrera, criador da Mofolândia, ao lado de Rafael
Cortez Neto durante entrevista de ambos no programa "Você
é Curioso", na Band AM. |
Quem faz uma
consulta com o dr. Rafael Cortez Neto, médico endocrinologista,
e é fã de desenhos animados, sequer imagina que
conhece tão bem aquela voz desde a infância. Ele
divertiu uma legião de fãs do Johnny Quest, o típico
garoto loirinho norte-americano que se envolvia em aventuras com
seu pai, o Dr. Benton Quest, que era convocado para missões
perigosas a serviço do governo, envolvendo ciência,
mistério e espionagem. Antonio Carlos Cabrera, criador
da Mofolândia, entrevistou com exclusividade o dono da voz
que consagrou o personagem no Brasil durante encontro no programa
"Você é Curioso?", em que participaram
no dia 26 de outubro de 2002.

Jonny Quest |
Mofolândia
- Você ficou conhecido com a voz do Jonny Quest. Mas como
começou a fazer dublagem?
Rafael Cortez Neto - Eu era amigo do José Marques
Thomé, que tinha um programa de televisão na antiga
TV Excelsior chamado "Repórter Caçula".
Todos os dias, ele fazia uma apresentação e eu ia
vê-lo na rua Nestor Pestana, onde hoje é o Teatro
Cultura Artística, em São Paulo. Eu o visitava uma
ou duas vezes por semana e achava bacana aparecer na televisão.
Ele fazia também dublagem na Ibrasom, na Praça Marechal
Floriano, e também na AIC. Um dia, fui acompanhá-lo
num desses trabalhos em que ele dublava o dono da égua
da série "Minha Amiga Flica" (seriado sobre uma
égua que fazia o bem) e também alguns outros filmes.
Achei interessante a forma como eles viam o filme, tiravam o som
e falavam em português. Aí, eu comecei a guardar
alguns textos e perguntei ao diretor se eu podia fazer um pedacinho
desse personagem que meu amigo dublava para ver como ficava. De
tanto ver eu acabei pegando alguns macetes e o diretor de dublagem
(que era o Wolner Camargo ou o Amaury Costa, não me lembro)
disse: "olha rapaz, você tem uma voz boa, vamos fazer
um teste". Passei no teste na AIC e eu comecei a fazer umas
pontinhas, alguns anéis (trechos de 2 minutos). A Ibrasom
também estava fazendo testes e eu fui lá. Também
gostaram e eu fui fazendo pontas em filmes até que apareceu
o meu grande personagem, o Jonny Quest. Quando surgiu esse desenho,
em 1969, eu e o ator Olney Cazarré fizemos o teste para
pegar o personagem principal, mas a minha voz parece que se encaixou
melhor e ele acabou ficando com o papel do Hadji, aquele hindu
que acompanhava o menino em todas as suas aventuras. Eu fiz mais
de 35 filmes do Jonny Quest. E, além do Olney Cazarré,
tinha também o Dênis Carvalho (atualmente, diretor
da Rede Globo), que fazia o Roger, e o Amaury Costa, que era o
Doutor Quest. Aliás, foi o Amaury quem me incentivou a
continuar fazendo dublagem. Simultaneamente, apareceu o National
Kid, que era aquele japonês que voava e tinha cinco amiguinhos.
Eu dublei toda a série do National Kid fazendo o mais amigo
velho, chamado Yokio Hubat.
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Mofolândia
- Quantos anos você tinha quando assumiu as vozes desses
personagens?
Rafael Cortez Neto - Dublei dos meus 17 anos e meio até
os 19 anos. Quando eu entrei na faculdade, aos 20, parei de dublar.
Minha voz, naturalmente, mudou bastante. Mas, há menos
de um ano, uma cliente minha, diretora de dublagem, que trabalha
com séries do National Geographic, me pediu para fazer
uma pontinha. Então, fiz a chamada de um filme, só
para matar a saudade.
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Mofolândia
- Como era o clima daquela época? Quem fazia dublagem era
ator ou radialista?
Rafael Cortez Neto - A maioria era radialista, enquanto
eu era um estudante secundarista. Eu me lembro do Ivo Cury, do
Walker Blaz, Zezinho Cutulo, Garcia Neto e personalidades como
Osmar Prado, Cláudio Marzo, Denis Carvalho, Lima Duarte,
Hamilton Fernandes, que depois viraram atores de novelas. Todos
entravam no estúdio para fazer um anel e o filme tinha
trinta minutos, sendo dividido em pedaços de dois minutos.
Então, se um anel tinha três ou quatro personagens,
os quatro personagens tinham que estar no estúdio. E cada
um possuía uma fala, ou seja, se um errasse, precisava
voltar tudo de novo. Eu me lembro que o Amaury Costa, que era
o diretor da dublagem do Jonny Quest, falava assim: "anel
trinta e quatro, primeira". Aí, alguém gaguejava,
tossia, eu mesmo cheguei a espirrar, e tínhamos que apagar
tudo e refazer a gravação. Às vezes, eram
quatorze ou quinze vezes refazendo o mesmo anel. Veja só
quanto tempo perdíamos para que o anel ficasse bom! E a
qualidade realmente era ótima porque o editor era exigente,
queria perfeição. O encaixe e o sincronismo labial
tinham que ser perfeitos, quer dizer, abrir e fechar a boca exatamente
como o personagem fazia. Nós decorávamos e as entradas
tinham que ser muito bem feitas, interpretávamos, chorávamos,
ríamos, era muito gostoso. Hoje, é um pouco diferente.
Eu já vi produções em que você entra
no estúdio e dubla o seu personagem sozinho em vinte, trinta
anéis. É só você e o diretor. Depois,
eles mixam a dublagem e fica essa maravilha que nós vemos
na TV.
Mofolândia
- Além dessa participação narrando abertura
para a National Geographic, você fez mais algum trabalho em
televisão?
Rafael Cortez Neto - Fiz, mas como médico. Eu tinha
uma cliente no meu consultório, a Gilmara Sanches (ex-jurada
do Silvio Santos), que hoje tem uma produtora de dublagem. Ela
ficou sabendo que eu já tinha experiência em televisão
e me indicou para um quadro médico no jornalístico
"Noticentro", que passava à noite, no SBT, na
década de 80. Eu aparecia no vídeo todos os dias
falando sobre saúde. A princípio, meu contrato era
de seis meses, mais o Silvio Santos gostou e acabei renovando
por mais um período. Foi uma ótima experiência,
mas certamente, se eu não fosse médico, continuaria
a carreira de dublador.
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